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O inverno de sal e sangue

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Annotation

Ísla Vael foi criada para ser útil. Como filha mais velha da Casa Vael, aprendeu a interpretar alianças, a obedecer ao poder e a sobreviver num mundo onde as filhas são transformadas em instrumentos. Mas quando rouba um bebé da Casa Dorn e desaparece na escuridão do oeste, faz a única coisa que a sua família nunca esperaria: escolhe algo por si própria. A criança que carrega não é comum. Mira é uma criança de linhagem, nascida com um poder que a velha ordem quer eliminar antes que possa crescer. E Kas Morvein, o caçador mais perigoso das rotas ocidentais, foi contratado para encontrar Ísla e trazê-la de volta. Ele deveria devolvê-la. Em vez disso, segue-a. À medida que as Casas se aproximam e forças antigas começam a agitar-se em torno da criança, Ísla e Kas são levados para norte, atravessando estradas em ruínas, pântanos e território hostil, em direção ao único lugar que ainda possa proteger raparigas como Mira. Mas quanto mais se aproximam, mais perigosa se torna a estrada — e o mesmo acontece com o laço que cresce entre eles. Porque Kas não é apenas o homem enviado para a caçar. É também o primeiro homem que vê o que ela é, por baixo de tudo aquilo que o pai tentou fazer dela. Agora, com inimigos às suas costas, um poder a despertar na escuridão e uma criança que pode mudar o futuro do Norte, Ísla tem de decidir quem será quando a fuga terminar. Porque algumas mulheres são criadas para serem usadas. Outras sobrevivem o tempo suficiente para se tornarem impossíveis de controlar.

Capítulo: 1: Capítulo 1 – O Roubo

A criança não chorou.Essa foi a primeira coisa — a única que Ísla não havia previsto nas horas que passou planejando todo o resto. Ela havia levado em conta o barulho. Havia ensaiado o trajeto partindo do princípio de que haveria barulho, com uma bebê chorando em seu colo e os guardas noturnos da Casa Dorn fazendo suas rondas na quarenta. Ela já havia roubado da Casa Dorn antes, com menos preparação e uma consciência mais pesada, e tudo tinha corrido bem.Mas Mira olhou para ela do berço com olhos que não combinavam com o rosto de uma criança de oito meses e não emitiu nenhum som.Ísla ficou parada na escuridão do quarto do bebê por mais três segundos do que havia planejado, simplesmente olhando de volta para ela.Então, ela amarrou a criança ao peito e saiu pela janela.O caminho pela falésia era um segredo da Casa Dorn e, portanto, não era segredo — ela o havia encontrado nos registros comerciais, enterrado em uma linha sobre drenagem de suprimentos, o tipo de anotação que seu pai usava quando escondia algo à vista de todos. Ela passou dois anos memorizando os sistemas de anotação do pai. Nos anos anteriores a isso, passou o tempo aprendendo a sorrir para os homens do outro lado da mesa, cujos apertos de mão selavam seu futuro. Ela não havia desperdiçado nada daquela educação, nem mesmo as partes que tinham como objetivo aprisioná-la.O caminho era estreito. O precipício à sua esquerda estava em algum lugar entre catastrófico e fatal, e o vento que soprava da água era cortante. Ela manteve o ombro encostado na parede rochosa e avançou com firmeza, uma mão apoiada na pedra, a outra pressionada contra as costas de Mira. O peso da criança era quente e sólido contra seu esterno. Com oito meses de idade, já era a coisa mais pesada que Ísla já havia carregado.Ela estava a vinte pés do fim do caminho quando o ouviu atrás de si.Não eram os guardas. Ela conhecia o padrão dos guardas — passara quatro dias na cidade portuária de Dorn observando a troca de turno, comendo peixe estragado, memorizando os horários. Era uma única pessoa, sem pressa, sem se esconder. O som característico de alguém que sabia que ela o havia ouvido e decidira que não importava.Ela parou. Encostou as costas na rocha. A criança entre seu corpo e a pedra, a faca na mão direita, o precipício à esquerda do ombro.Ele contornou a última curva caminhando vagarosamente. Alto. O rosto parecia mais velho do que os ombros sugeriam. Barba por fazer de três dias, com fios prateados na mandíbula. Ele parou a seis pés de distância e olhou para ela com aquele tipo de atenção que ela associava a homens que cobravam valores altos por trabalhos específicos, e não disse absolutamente nada.— A Casa Dorn contratou você — disse ela.“Não.”Ela observou as mãos dele. A faca no cinto, sem ser sacada. A besta nas costas, sem ser tirada do coldre. Ele permanecia imóvel, com a serenidade de alguém que já havia passado por situações piores do que aquela e as considerava instrutivas.“Então quem?”“Alguém que quer que você seja encontrada”, disse ele. “Não a criança.”Mira se mexeu contra o peito dela. Ísla manteve os olhos fixos nele. “Encontrada”, repetiu ela. “Essa é uma palavra suave para isso.”“Eu escolho palavras claras.” Ele olhou para a criança, rapidamente, depois voltou a olhar para o rosto dela. Algo se moveu em sua expressão que ela não sabia como classificar. “Eles não me falaram sobre ela.”“E agora que você sabe.”Ele ficou em silêncio por um momento. O vento vindo da água, o som distante do mar batendo contra o penhasco lá embaixo. “Eles querem que você seja devolvida”, disse ele. “Não falaram nada sobre uma criança. No que diz respeito ao meu contrato, ela não existe.”“Que conveniente.”“É correto.” Ele olhou para Mira novamente, por mais tempo desta vez. A criança o observava com aqueles olhos maduros demais, perfeitamente imóvel, um punho cerrado contra a clavícula de Ísla. Algo passou por seu rosto que ele não conseguiu registrar com rapidez suficiente. “As Casas estão procurando por você há dez dias”, disse ele. “Eu a encontrei em quatro. O próximo homem que eles mandarem será mais rápido.”“Ou mais lento.”“Não mais lento.” Ele disse isso sem arrogância. Apenas com a frieza específica de quem afirma um fato. “Sou o melhor que eles podem contratar nas rotas ocidentais. O homem que vier depois de mim será um soldado de uma Casa com uma ordem permanente e sem interesse específico no que acontece a uma criança de linhagem nobre.”O vento aumentou. Ela segurou a criança com mais força, manteve o rosto impassível e pensou: dez dias. Quatro dias para me encontrar. Ela tinha sido cuidadosa. Sempre era cuidadosa. Guardou isso também na memória — sem alarme, ainda não, apenas como informação.“Você está me dizendo isso”, disse ela.“Sim.”“Por quê?”Ele olhou para ela por um longo momento. Então disse: “Ainda não sei.”Era a resposta errada, o que significava que provavelmente era verdadeira. Ela havia passado vinte e seis anos ouvindo a resposta certa de homens que já haviam decidido para que ela servia. Ela reconheceu a essência disso. Isso era diferente. Ela catalogou a diferença e manteve a faca onde estava.“Tem um caminho que desce até a enseada”, disse ela. “Não é a estrada principal.”“Eu sei. Foi por ali que subi.”“Você poderia ter esperado lá embaixo.”“Sim.”Ela olhou para ele. Ele olhou de volta. Três pés de vento escuro e frio entre eles, um penhasco à esquerda dela, um caminho sem saída atrás dele e uma criança de oito meses encostada entre o corpo dela e a rocha, que ainda não havia chorado.“Se você vier comigo”, disse ela, “não é por causa deles.”“Eu sei.”Ela manteve o olhar fixo nele por mais três segundos. Verificou os detalhes: as mãos dele, a posição, a besta, a faca, o precipício, o caminho, as trinta milhas de estrada sem vigilância entre ali e qualquer lugar que não fosse território de Dorn. Verificou tudo novamente. Arquivou a conclusão na coluna “já decidido”, porque essa era a única que a fazia seguir em frente.Ela tirou as costas da rocha e passou por ele em direção ao fim da trilha.Ele seguiu atrás dela. Não muito perto — a distância adequada, sem se aproximar demais. Ela podia ouvi-lo, mas não senti-lo. Contou os passos dele e mapeou seu andar automaticamente, do jeito que seu pai lhe ensinara, e notou que ele quase não fazia barulho para um homem do tamanho dele.Chegaram à enseada. O barco estava onde ela o havia deixado, amarrado a um anel enferrujado cravado na parede rochosa, balançando nas águas escuras. Ela entrou, acomodou a criança e desamarrou a corda. Quando olhou para trás, ele estava parado à beira da água.— Vai entrar? — perguntou ela.Ele entrou sem perguntar para onde.Ela remou. Ele não se ofereceu para pegar os remos e ela também não os ofereceu. Ele sentou-se na proa, com os cotovelos apoiados nos joelhos, observou a água escura e não disse nada, e ela percebeu que estava prestando atenção à natureza do silêncio dele, e não à simples ausência dele. Havia uma diferença. O silêncio de um homem planejando algo e o silêncio de um homem simplesmente estando em um lugar não eram a mesma coisa, e o dele era do segundo tipo. Ela não tinha conhecido muitos assim.Mira dormia entre os dois, enrolada no cobertor que Ísla havia tirado do quarto das crianças — lã de boa qualidade, vermelho de Dorn, ela teria que se livrar dele — e não se mexeu quando o barco raspou na margem oposta.Em quarenta minutos, ela já tinha acendido uma fogueira. Ele juntou lenha sem que lhe pedissem e não fez comentários sobre o local que ela escolheu para acampar, o que lhe indicou que ele teria escolhido outro lugar. Ele estava analisando o terreno da mesma forma que ela. Registrando os mesmos dados em colunas diferentes.A criança precisava ser alimentada. Ela destampou o pequeno frasco de barro que havia tirado dos suprimentos do berçário e o inclinou com cuidado, e ele foi até a fogueira, o que ela notou.Quando ela se virou, ele estava sentado com os braços cruzados sobre os joelhos, olhando para as chamas.— Nome — disse ela.Ele olhou para ela. “Kas.”“Casa?”“Não.”Ela já tinha adivinhado isso. Não pertencer a nenhuma Casa significava não ter lealdade, o que significava não ter a quem prestar contas — o que poderia ser melhor ou muito pior, dependendo de quais fossem suas motivações. Ela olhou para a criança, para o rosto dele, e voltou a olhar para o fogo. “Meu nome é Ísla.”“Eu sei.”“Do contrato.”“De antes do contrato.” Ele disse isso sem ênfase. “Casa Vael. Filha mais velha. Quatro idiomas, leis da Casa do Sal, arquitetura de alianças. O instrumento mais caro do seu pai.”Ela manteve a expressão impassível. “Você fez sua pesquisa.”“Faço isso antes, não depois.”“E a criança?”Ele ficou em silêncio por um momento. “Portadora da linhagem”, disse ele. “Família menor do oeste. A Casa que a mantinha é afiliada a Dorn, mas não é de Dorn — eles a mantinham para outra pessoa. O homem que me contratou não a mencionou, o que significa que ou ele não sabia sobre ela ou queria ver o que eu faria quando a encontrasse.”“Qual das duas opções você acha que é?”“Acho que ele não sabia.” Ele olhou para Mira. “Se soubesse da criança, teria mandado alguém que se importasse menos.”Ela deixou a frase no ar. Jogou um galho na fogueira. A criança havia ficado imóvel em seus braços, com aquele peso característico que significava sono, e Ísla mudou o peso do corpo, sentiu o nó no ombro esquerdo e pensou nas quarenta milhas que ainda a separavam de qualquer indício do norte.“Você tem um ferimento no lado”, disse ela. “À esquerda, sob as costelas. Você vem compensando o movimento desde o penhasco.”Ele olhou para ela.“Você é bom nisso”, disse ela. “Quase não percebi. Mas você deu um passo largo na saliência rochosa da enseada — não teria feito isso se estivesse se movendo livremente.”Uma pausa. Em seguida: “Foi uma pedra de dois dias atrás. Já fechou.”“Quem vai julgar isso sou eu.”Ele a observou por um momento com aquele tipo de atenção de novo — analisando, catalogando, a mesma coisa que ela fazia, e reconhecer isso foi estranho. Então ele puxou a camisa para cima.A ferida estava fechada, mas roxa; a pele estava esticada e quente demais quando ela pressionou a borda. Ainda não estava infectada. Ela trabalhou sem dizer nada, limpou a ferida com o que tinha à mão, e ele ficou imóvel, com aquela postura inquietante de um homem que já havia se ferido em lugares piores e considerava aquilo apenas um procedimento de rotina.— Você é boa nisso — disse ele.“O instrumento do meu pai precisava ser autossuficiente”, disse ela. “Para o caso de o instrumento ser danificado durante o transporte.”Ele não disse nada. Ela puxou o linho com força, deu um nó, sentou-se sobre os calcanhares, olhou para ele à luz da fogueira e pensou: ainda não sei quem você é. Era a primeira vez em anos que ela pensava isso sobre alguém. Normalmente, ela sabia nos primeiros dois minutos. Normalmente, ela precisava saber, porque saber era a única coisa que a mantinha à frente.Ela não sabia o que fazer com essa incerteza.“Durma”, disse ela. “Vou ficar com o primeiro turno de vigia.”Ele abaixou a camisa. Olhou para ela. “Você não vai me pedir para ir embora.”“Vou pedir que você seja útil”, disse ela. “São coisas diferentes.”Ele deitou-se do outro lado da fogueira. Ela sentou-se com a criança nos braços, observou a escuridão além das árvores e ouviu o mar; e, em algum momento, percebeu que havia parado de calcular rotas de fuga.Ela recomeçou. O hábito era antigo demais para ser abandonado em uma única noite.Mas ela percebeu a lacuna.Uma hora antes do amanhecer, o Lobo do Sal chegou.Ela o ouviu antes de vê-lo — um silêncio estranho, a ausência específica de vento, a água ficando calma e, em seguida, o cheiro dele: sal, pedra antiga e algo por baixo que não tinha nome em nenhuma das quatro línguas que lhe haviam ensinado. A criança acordou. Não chorava — apenas estava acordada, com os olhos abertos na escuridão, um punho pressionado contra o próprio esterno.Kas já estava de pé antes mesmo que ela falasse. Ela não o tinha ouvido se mover.Aquilo saiu da água como algo que sempre estivera ali e simplesmente decidira se tornar visível. Pálido como a névoa, imenso, paciente — nem agressivo, nem com medo, nem nada para o qual ela tivesse uma palavra. Ficou parado na borda da floresta e olhou para a criança, e aquele olhar foi a coisa mais específica que ela já vira no rosto de um animal.Kas se colocou entre ela e aquilo.Ela quase disse para ele não fazer isso. Quase disse: “Não preciso disso”. Mas olhou para as costas dele, para a postura de seus ombros, para a qualidade de tranquilidade que emanava dele — não congelada, não fingida, a genuína ausência de medo — e não disse nada.O Lobo olhou para Kas. Depois, para Ísla. Em seguida, para a criança novamente. Então, ele se virou, voltou para a água e desapareceu.O vento voltou. O mar retomou seu movimento. Mira abaixou o punho e fechou os olhos.Kas se virou. Olhou primeiro para a criança, depois para ela.— Isso também não estava no contrato — disse ele.“Não”, disse ela. “Não estava.”Eles se olharam na penumbra, a fogueira se reduziu a brasas entre eles, e ela pensou: ainda não sei o que você é. E então, por baixo disso, mais baixinho: mas você se colocou entre mim e aquilo. Você não precisava fazer isso. Você nem pensou nisso. Simplesmente agiu.Ela arquivou isso em uma coluna que ainda não tinha nome.“Durma”, ela disse novamente. “Vou te acordar ao amanhecer.”Ele se deitou novamente. Ela ficou observando a água até que a luz surgisse.

Capítulo: 2: Capítulo 2 – A manhã seguinte

Ele observava-a dormir.Não da maneira como um homem observa uma mulher — ou não apenas assim, embora ele fosse honesto o suficiente consigo mesmo para reconhecer que isso existia. Da maneira como um homem observa um problema que decidiu não resolver ainda. Da maneira como ele observa um terreno pelo qual terá de passar antes de compreendê-lo plenamente.Ela dormia como alguém que havia se treinado para dormir — de forma eficiente, de lado, com uma mão perto da faca que havia colocado ao seu lado antes de fechar os olhos. A criança estava aconchegada contra seu peito, quentinha e imóvel. A fogueira estava reduzida a cinzas. A luz que penetrava por entre as árvores era aquele tom específico de cinza que indicava que a hora antes do amanhecer havia se transformado em meia hora depois dele, e Kas havia ficado acordado durante a maior parte da noite, e não havia ido embora.Ele analisou os números. Fez isso da maneira como fazia a

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