
A rainha rejeitada do Norte: O sangue sob a coroa
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Anotación
Eira Thorsen atravessou o Sul, sobreviveu às suas leis e manteve a sua coroa. Mas a vitória tem uma maneira de revelar coisas que nunca deveriam ter ficado enterradas. À medida que a verdade sobre as rainhas-lobo se aprofunda e o sangue antigo subjacente ao poder de Eira começa a agitar-se, o Norte já não é ameaçado apenas por inimigos nas suas fronteiras, mas pelo que vive no seio do seu próprio legado. O que estava oculto no silêncio, no ritual e no sangue está finalmente a emergir. E, desta vez, pode exigir mais do que lealdade. Pode exigir herança. À medida que forças ancestrais se estreitam à sua volta, Eira tem de enfrentar a verdade mais perigosa até agora: uma coroa não é apenas algo que se usa. É algo que pode consumi-la. Com Ragnar ao seu lado e o destino do Norte ligado a cada uma das suas escolhas, Eira é forçada a um acerto de contas final com o poder, o amor e a linhagem que sempre esteve destinada a mudar o mundo. Porque algumas rainhas herdam reinos. Outras herdam o que estava enterrado por baixo deles. E mesmo quando este confronto terminar, nem todas as histórias do Norte estarão concluídas. A de Einar começa a seguir em *The Ice Wolf’s Ruin* — um spin-off ambientado no mundo de *Rejected Queen of the North*.
Capítulo: 1: Capítulo 1 – O vestido ainda serve
O Norte estava tranquilo há onze dias.Eira observou isso da mesma forma que observava tudo — sem apego, sem alívio. Ela anotou na margem do livro-razão comercial: onze dias, nenhum incidente. Em seguida, fechou o livro-razão, colocou-o na pilha junto com os outros e olhou pela janela para o pátio, onde a neve havia parado de cair algum tempo antes do amanhecer.O silêncio era o problema. Ela sabia interpretar o silêncio. Esse, em particular, tinha peso.Ela se vestiu sem chamar suas criadas. A lã cinza. As botas que precisavam de nova sola. A coroa por último — ela a retirou do suporte junto à janela e sentiu o frio dela percorrer seus dedos, subir pelos pulsos, estabelecendo-se em algum lugar atrás do esterno. Estava sempre fria. Ela já não esperava o contrário. Colocou-a e verificou seu reflexo no vidro escuro, e o que a olhava de volta era exatamente o que ela pretendia: uma rainha que havia dormido bem e não tinha nada a provar.Ela desceu para o conselho matinal.Ragnar já estava lá. Ele sempre estava lá — ela nunca havia chegado antes dele, nem uma única vez. Ele estava de pé à cabeceira da mesa, lendo um despacho, e ela sentiu que ele percebeu sua entrada antes mesmo de levantar a cabeça. Aquele era o vínculo. Um zumbido baixo de reconhecimento, constante como um batimento cardíaco. Ela registrou aquilo mentalmente: presente, firme, sem alarme. Ótimo.Ele ergueu o olhar. Não disse nada. Ela sentou-se.Einar estava junto à janela, com as mãos cruzadas atrás das costas, observando o pátio. Ele se virou quando ela entrou e deu um breve aceno de cabeça. Seu rosto estava igual ao de sempre — composto, econômico, sem revelar nada. Ele era conselheiro de seu marido desde antes de ela chegar ao Norte e, em três anos, ela nunca o tinha visto hesitante. Ela achava isso útil. Tinha parado de pensar no que se escondia por trás disso.— Onze dias — disse ela.“Doze, até amanhã.” Einar dirigiu-se à sua cadeira. “Os territórios do sul relataram duas disputas menores sobre direitos de pastagem. Ambas foram resolvidas em nível local. A passagem ocidental está ficando desobstruída. A cadeia de abastecimento para os feudos periféricos está adiantada em relação ao cronograma.”Ela ouviu. Observou o rosto de Ragnar enquanto ele ouvia. Ele tinha o relatório aberto sobre a mesa agora, com uma mão apoiada nele, e ela podia perceber, pela forma como ele permanecia imóvel, que o relatório o incomodava. Ela ainda não perguntou. Perguntaria mais tarde, ou ele lhe contaria, ou a questão viria à tona por conta própria. Era assim que as coisas funcionavam entre eles.“O vestido ainda serve”, disse ela, quando Einar terminou.Os dois homens olharam para ela.“O Norte.” Ela colocou as mãos sobre a mesa. “Nós construímos isso. Está de pé. Devemos levar isso em conta.”Ragnar quase sorriu. Einar olhou para suas anotações.O mensageiro chegou no meio da manhã.Eira estava no salão inferior revisando a escala de guarnição quando os portões se abriram. Ela ouviu antes de ver — uma mudança na qualidade do barulho vindo do pátio, o tom característico de uma perturbação que ainda não havia se tornado uma crise. Ela deixou a escala de lado e caminhou até a porta.A mulher estava a cavalo, mas mal se segurava. Estava inclinada para a frente sobre o pescoço do animal, uma mão emaranhada na crina, a outra pressionada contra as próprias costelas. Cores ocidentais — o azul claro e o cinza-cinza de uma casa menor. Seu rosto, quando finalmente ergueu o olhar, tinha a cor de neve velha.— Rainha — disse ela. Sua voz estava devastada. — Preciso da rainha.Eira já estava atravessando o pátio.Levaram-na para dentro e a deitaram sobre a mesa na pequena sala de recepção ao lado do salão principal — aquela com a lareira, a que Eira usava quando não queria que uma conversa se tornasse oficial. Ela catalogou o que viu: hematomas ao longo da mandíbula, mais antigos do que os de hoje. Um ferimento no flanco que havia sido curado no campo, e mal feito. O cavalo havia sido montado além do limite razoável de resistência. A mulher também.— Chame a curandeira — disse Eira ao guarda na porta. — Agora. Não avise que ela está chegando.Ela se ajoelhou ao lado da mesa. “Estou aqui. Você me encontrou. O que precisa me dizer?”Os olhos da mulher focaram com esforço visível. Sua mão se moveu — ela estava tentando alcançar algo, percebeu Eira, procurando seu próprio casaco, o bolso interno. Eira enfiou a mão e tirou um pedaço de papel dobrado em forma de quadrado, selado com cera que havia rachado em algum ponto ao longo do caminho. Ela não o abriu. Ainda não.“Quem te enviou?”“O Oeste.” Uma respiração. “Do Oeste. Ela disse —” A mulher parou. Engoliu em seco. O esforço percorreu todo o seu corpo. “Ela disse que você saberia o que isso significava. Ela disse para dizer à Rainha que a mãe dela não se escondeu. Ela foi queimada.”O quarto ficou em silêncio total.Eira guardou aquilo na memória. Colocou-o nos fundos da boca, trancou-o ali e manteve o rosto exatamente como estava. “Qual é o seu nome?”Mas os olhos da mulher já estavam fixos no horizonte. Seu peito ainda se movia — Eira podia ver isso, podia sentir, por meio de uma estranha e nova percepção, o fio tênue do pulso da mulher, ali, ali e ali. Presente. Desgastando-se.O curandeiro chegou. Eira levantou-se, afastou-se e deixou que ele trabalhasse, ficando parada junto à janela, olhando para o pátio lá embaixo, onde dois lobos atravessavam em direção ao arsenal, e o céu tinha a cor do ferro, e tudo estava exatamente como estava há uma hora.Ela segurava a carta lacrada com as duas mãos. Não a abriu.Ela precisaria contar a Ragnar. Precisaria dizer algo a ele. Começou, com cuidado, a construir o que seria esse algo — o quanto, em que ordem, quais fatos eram essenciais e quais podiam esperar. Ela era boa nisso. Sempre fora boa nisso. A coroa estava fria contra sua testa e ela estava ciente disso da mesma forma que estava ciente de seus próprios batimentos cardíacos: sempre, por baixo de tudo, um fato.Sua mãe não se escondera.Ela havia sido queimada.Eira guardou isso também. Ela trancou essa informação junto com o resto e se afastou da janela enquanto a curandeira olhava para ela com aquela expressão específica que as curandeiras assumiam quando já tinham feito tudo e ainda assim não tinha sido o suficiente.— Mantenha-a estável — disse Eira. — Custe o que custar.Ele assentiu, mas seus olhos diziam: Vou tentar.Ela saiu da sala antes que seu rosto pudesse revelar qualquer emoção.
Capítulo: 2: Capítulo 2 – Antes que o corpo esfrie
O mensageiro morreu antes que o curandeiro terminasse seu segundo exame.Eira ainda estava na sala. Ela não tinha saído. Ficou parada junto à janela por quase uma hora, observando o pátio e ouvindo o curandeiro trabalhar; e quando a natureza do silêncio atrás dela mudou, ela se virou e ele já estava se endireitando, já pressionando as mãos contra as coxas daquela maneira específica que significava que o trabalho estava concluído e que o resultado era o errado.“Sinto muito”, disse ele.— Deixe-nos a sós.Ele hesitou. Ela olhou para ele. Ele saiu.O quarto era pequeno e aconchegante, e a lareira havia se reduzido a brasas. Eira ficou parada por um momento, olhando para a mulher sobre a mesa — as cores do oeste, o ferimento mal enfaixado, a mão que finalmente se abriu e repousava aberta sobre a madeira, como se estivesse oferecendo algo. Ela era jovem. Mais jovem do que Eira havia percebido à primeira vista











